Autor(a): Brito, Flávia Lorena
Orientador(a): Caetano, Edson
Resumo
Esta pesquisa analisa as práticas educativas envolvidas no ofício de benzeção no Quilombo de Mata Cavalo/MT. Nos interessam os processos de ensino e aprendizado do dom e das técnicas curativas em si e como esses saberes circulam na comunidade. Os dados empíricos que aqui analisamos são fruto de pesquisa de campo que emerge da realização do projeto de extensão “Conhecimentos Tradicionais e o Direito de Reconhecimento de Benzedeiras e Benzedores do Quilombo de Mata Cavalo/Nossa Senhora do Livramento”, aprovado junto à FAPEMAT (Fundação de Amparo à pesquisa do Estado de Mato Grosso) no ano de 2021 por meio do Edital 03/2021 – Extensão Tecnológica – Conhecimento a Serviço da População, executado pelo GEPTE (Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho e Educação) entre os anos de 2021 e 2022. No bojo do projeto, foi realizado o mapeamento das benzedeiras e benzedores de Mata Cavalo e, em seguida, oficinas formativas que envolviam o grupo pesquisador e os curadores e curadoras locais. Foram mapeadas 22 pessoas reconhecidas na comunidade pelas práticas tradicionais de cura. Destas, 13 se declararam benzedeiras ou benzedores, sendo elas nossos principais interlocutores nesta pesquisa. A partir dos áudios e entrevistas geradas nesse contexto, bem como das relações estabelecidas com a comunidade, nosso percurso metodológico intencionou construir percepções, sentidos e significados aos processos educativos vivenciados individualmente e coletivamente, nas diversas fases das vidas de tais pessoas, inclusive nos momentos vividos nas oficinas formativas. Portanto, o objetivo principal desta pesquisa é observar os processos de educação não escolar presentes nas práticas de benzeção no Quilombo de Mata Cavalo a partir dos subsídios gerados pelo referido projeto de extensão. Nessa discussão sobre os saberes e a educação não escolar, nos dedicamos a aspectos relacionados ao binômio Trabalho-Educação a partir de uma perspectiva materialista histórico-dialética (ANTUNES, 2005; ENGELS, 2006; MARX, 1985; 1988; 1977; 2001; SAVIANI, 2007). O aprendizado que circula nos saberes e fazeres de benzedeiras e benzedores se evidencia nas formas comuns de perceber o mundo a partir de diferentes vieses, que em geral demonstram a prevalência dos costumes, conforme Thompson (1981; 2005). Teoricamente, nossa pesquisa se assenta em percepções sobre saberes e educação em espaços não escolares (ALBUQUERQUE, 2015; ALBUQUERQUE, SOUSA, 2016; MEDAETS, 2020; NOGUEIRA; ALBUQUERQUE, 2021; WALSH, 2013); no conceito de Bem Viver (ACOSTA, 2016; ALBÓ. 2019; CUBILLO-GUEVARA; HIDALGO CAPITÁN, 2019); em debates sobre a Decolonialidade (ESCOBAR, 2014; KRENAK, 2020; 2019; QUIJANO, 2005; WALSH, 2007) e a Educação Popular (BRANDÃO, 2017; 2005; HOLLIDAY, s/d; 2006; PALUDO, 2015). Os conceitos e categorias que possibilitam a construção de nossas percepções e impressões sobre as realidades que vivenciamos pertencem ao campo do Materialismo Histórico Dialético (KOSIK, 2002; FRIGOTTO, 1989; SAVIANI, 2007; MARX, 1988) e da Antropologia (GODELIER, 2001; MAUSS, 2017; TEMPLE, 2000; 2003; 2008). Nesse contexto, buscamos demonstrar que os saberes e fazeres de benzedeiras e benzedores de Mata Cavalo se estruturam a partir de uma perspectiva decolonial, carregando consigo uma lógica re-existente, que nega o modo de vida capitalista, se constituindo, assim, em epistemes revolucionárias, pautadas na amorosidade essencial (BRANDÃO, 2005; FREIRE, 1994; 2000). Tais percepções nos auxiliam, assim, na construção e consolidação do conceito de Bem Fazer, já que a prática da benzeção envolve, em sua essência, o cuidado, a amorosidade, a coletividade e a produção da vida de forma associada.