kilombo

A água e a cartografia do imaginário nos climas de três territórios geográficos

Autor(a): Nora, Giseli Dalla

Orientador(a): Sato, Michele Tomoko

Resumo

As pontes simbolizam o diálogo, e busquei construir vários ponteares na construção da tese, como a relativização do EU-ISOLADO à pesquisa em grupo por meio de um NÓS-COLETIVO, bem como a essência da geografia, hoje impregnada de culturas pedagógicas nas vivências, pesquisas e sentimentos da educação ambiental. O trilhar dessa pesquisa é resultado de ponteares alicerçados nos princípios da justiça climática, compreendendo as diferentes percepções sobre o clima em 3 territórios diferentes, que tinham características da água doce, da água salgada e da escassez da água. Para estes contextos, foram privilegiados pequenos territórios geográficos: no Pantanal matogrossense de abundantes corpos de água doce [agricultores/lavradores de São Pedro de Joselândia]; no Cerrado do centro-oeste brasileiro já com escassez da água [agricultores/lavradores do quilombo Mata Cavalo]; e na porção norte e marítima da Espanha [pescadores e trabalhadores do mar que habitam a Galícia]. Ouvindo histórias e contando outras, busquei construir mais pontes de diálogos entre a educação ambiental e a justiça climática, dimensões bastante ausentes nos estudos sobre as mudanças climáticas, principalmente nos marcos mundiais propostos pela Organização das Nações Unidas. A metodologia deste trabalho é a Cartografia do Imaginário Satiana como orientação para o percurso da pesquisa e posicionamento político. A metodologia adotada é uma forma de interpretar os fenômenos, de compreender que as escolhas ideológicas não são neutras, elucidando detalhadamente os territórios de pesquisa com estudos de caso, dialogando sobre as experiências e vivências. Na cartografia dos resultados, a escassez da água é percebida pelos habitantes pantaneiros como ameaça das roças, já que a mudança nos regimes das chuvas já vem forjando alterações nas paisagens da água doce. Nos ponteares construídos no cerrado, o aumento da temperatura e a escassez da água potável são as injustiças climáticas que prejudicam também as roças, além da alteração dos hábitos alimentares e os agravos da saúde. Observei, ainda, que o acesso a água está vinculado aos poços caipiras e artesianos, e que num futuro próximo, podem acirrar mais ainda o conflito socioambiental já existente na localidade. O quilombo Mata Cavalo possui outros dilemas relacionados à condição étnico-racial, que agrava mais a situação de manejo de seus territórios. Discuto também as impressões sobre a Galícia, território da água salgada que tive a oportunidade de explorar durante o doutorado sanduíche. Conheci as “artes de pesca”, formas de pesca específicas para cada tipo espécies, e de como a vulnerabilidade dos pescadores e trabalhadores do mar está presente quando exploramos as mudanças climáticas. O acesso a água potável ainda não se constitui como uma preocupação, entretanto as mudanças nas águas dos oceanos o são. Neste pontear, minhas percepções evidenciam o fenômeno das mudanças climáticas e seus impactos em escala local identificando três níveis de vulnerabilidade: a) científica e pedagógica – para compreensão e comunicação do que são e do que representam as mudanças climáticas; b) condições físicas e ambientais - relacionadas ao acesso à água, mudanças de temperatura bem como mudanças nos regimes de chuvas e c) políticas públicas – com ampla inclusão social, inclusive de vidas não-humanas. Esta pesquisa sustenta a tese de para muito além das propostas de adaptação e resiliência, é urgente compreendermos o desenvolvimento desigual gerado pelos modelos de consumo. Por isso, a investigação reconhece a necessidade da mudança do sistema, e não do clima. Acredito no poder da educação ambiental em promover a resistência contra uma sociedade que explora a natureza até a sua exaustão, amalgamada pela esperança do bem-viver dos povos e dos cuidados de seus ambientes.

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